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Michel Maffesoli: ‘A pandemia é o sinal de uma crise civilizatória’

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Michel Maffesoli: ‘A pandemia é o sinal de uma crise civilizatória’

Há mais de uma década, o sociólogo francês Michel Maffesoli vem examinando as rachaduras escondidas no que ele chama de “estruturas da modernidade”. Em livros como “Apocalipse” e “A palavra do silêncio”, o ex-professor da extinta Universidade Paris-Descartes e atual membro do Instituto Universitário Francês afirma que vivemos em função de paradigmas arcaicos — e que em breve estarão obsoletos, como o racionalismo e o progresso. Diante do avanço do coronavírus e seus impactos no planeta, ele agora dobra a aposta: o fim da modernidade nunca teria ficado tão evidente.

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Segundo Maffesoli, há vislumbres de um novo mundo que vem por aí, o da pós-modernidade. Uma cultura do sensível, focada na emoção e no instante presente, e onde predominam valores como o compartilhamento e o comunitarismo. O autor deixou Paris no início de março, e se recolheu em sua cidade natal, na região do Cevénnes, sul da França, onde tem uma casa. De lá falou ao GLOBO por telefone, em meio aos preparativos do seu novo livro, “La nostalgie du sacré” (A nostalgia do sagrado, em tradução livre), que deve sair por lá em abril, mas ainda não tem previsão de lançamento no Brasil. Neste mês, ele deveria participar de uma conferência em Porto Alegre, que acabou adiada por causa da pandemia. Não há nova data prevista por enquanto.

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Qual o impacto do coronavírus nos valores da modernidade?

Minha teoria é que esta crise sanitária é sinal de uma crise civilizatória. Vivemos o fim de um paradigma, e isso ficou ainda mais evidente agora, com a presença da morte a nos rondar. Há cerca de 15 anos, analiso a saturação desse modelo progressista, que é o grande modelo da civilização moderna. Para mim, ele está acabando agora. A epidemia atual tem uma expressão simbólica nesse sentido.

Veja 30 imagens que mostram cidades desertas ou quase por medo do coronavírus Vista da Times Square completamente vazia: retrato do tamanho da crise sanitária em Nova York, o epicentro da covid-19 nos Estados Unidos Foto: ANGELA WEISS / AFP Quase ninguém mais passa pelo Oculus, movimentadíssimo terminal de transporte público na Ilha de Manhattan, em Nova York Foto: BRUCE BENNETT / AFP A Estátua da Liberdade está fechada por conta da pandemia Foto: MIKE SEGAR / REUTERS Para tentar conter a pandemia do novo coronavírus na Cidade do México, até mesmo o Zócalo, sua principal praça pública, foi fechado Foto: ALFREDO ESTRELLA / AFP Aos pés dos Arcos da Lapa, no Centro do Rio, um cenário estranhamente vazio, numa tarde de quarta-feira no final de março Foto: MAURO PIMENTEL / AFP Pular PUBLICIDADE A Avenida Paulista, no coração de São Paulo, é outro lugar em que todo dia tem tido cara de domingo ou feriado Foto: AMANDA PEROBELLI / REUTERS Vista aérea de um cruzamento em Bogotá, praticamente sem trânsito de veículos durante o período de isolamento social Foto: RAUL ARBOLEDA / AFP É estranho ver o Caminito, no bairro de La Boca, um dos cartões-postais mais populares entre os turistas em Buenos Aires, vazio Foto: RONALDO SCHEMIDT / AFP E quem imaginou ver a Calle Florida, uma das mais movimentadas da capital argentina, sem ninguém? Foto: RONALDO SCHEMIDT / AFP Em Londres, as pessoas desapareceram da Trafalgar Square e da National Gallery Foto: TOLGA AKMEN / AFP Pular PUBLICIDADE E não há mais aglomerações de turistas e súditos em frente ao Palácio de Buckingham Foto: TOLGA AKMEN / AFP Uma imagem aérea do Coliseu numa Roma vazia é um dos símbolos da Itália nesses tempos de pandemia do novo coronavírus Foto: ELIO CASTORIA / AFP A Piazza dell'Esquilino, em frente à basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma, deserta Foto: ELIO CASTORIA / AFP Apenas entregadores de aplicativo são vistos na Piazza del Duomo, um dos pontos mais conhecidos de Milão Foto: PIERO CRUCIATTI / AFP Gôndolas vazias numa Veneza sem turistas, ainda em março Foto: ANDREA PATTARO / AFP Pular PUBLICIDADE Em Paris, não há ninguém nos Champs de Mars, aos pés da Torre EiffelFoto: PASCAL ROSSIGNOL / REUTERS … nem no Museu do Louvre Foto: THOMAS COEX / AFP Do alto também se vê um cenário bem deserto nos arredores do Arco do Triunfo Foto: PASCAL ROSSIGNOL / REUTERS Em Madri, uma das cidades mais afetadas pela pandemia do novo coronavírus, a Plaza de Mayo anda praticamente deserta Foto: GABRIEL BOUYS / AFP O famoso urso da Puerta del Sol, um dos símbolos de Madri, sem turistas em volta, é outra imagem impressionante da crise da covid-19 na Espanha Foto: GABRIEL BOUYS / AFP Pular PUBLICIDADE Pouca gente nos arredores do Arc de Triomf em Barcelona, na Espanha Foto: NACHO DOCE / REUTERS A Praça da Cidade Velha de Praga quase deserta em pleno meio-dia Foto: DAVID W CERNY / REUTERS O coronavírus esvaziou também a Theaterplatz, em Dresden, na Alemanha Foto: JENS SCHLUETER / AFP Patinetes elétricos abandonados numa praça na parte antiga de Vilnius, capital da Lituânia Foto: PETRAS MALUKAS / AFP Apenas uma passageira espera a composição na estação de metrô Komsomolskaya, em Moscou Foto: KIRILL KUDRYAVTSEV / AFP Pular PUBLICIDADE A Hagia Sophia, principal construção de Istambul, na Turquia, completamente vazia Foto: OZAN KOSE / AFP Um homem caminha entre lojas fechadas nos arredores da mesquita Al-Hussein, no Cairo, capital do Egito Foto: KHALED DESOUKI / AFP A população da Cidade do Cabo, na África do Sul, também tem evitado sair na rua Foto: RODGER BOSCH / AFP As escadarias coloridas que levam às cavernas de Batu, na Malásia, viviam lotadas de turistas antes das restrições de viagens impostas pela pandemia Foto: MOHD RASFAN / AFP As ruas da cidade de Xianning, na província chinesa de Hubei, o epicentro da covid-19 na China, continuam quase desertas Foto: ALY SONG / REUTERS PUBLICIDADE O que esta pandemia tem de diferente em relação a outras?

No início da decadência romana, no século II, houve uma terrível peste que matou milhões de pessoas. A peste negra no século XIV é o anúncio do fim da Idade Média e o início do Renascimento. A gripe espanhola veio após a carnificina da Primeira Guerra, que marca o fim da Europa. Vejo uma correlação a ser feita: cada vez que uma época se encerra, surge misteriosamente a emergência de uma pandemia. Talvez haja algo de místico nisso tudo.

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O senhor diz que vivemos uma transição. Já é possível entrever os valores desse novo mundo?

Na França, vemos celebrações e cantos coletivos nas janelas, uma alegria impactante. Essas manifestações nas janelas trazem elementos da pós-modernidade, como o estar-junto , o estar-com . Para mim, são indícios de que não queremos mais nos fechar no individualismo, ou numa organização muito racional da sociedade, que são, por sua vez, as marcas da modernidade.

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O que seria esse estar-junto ?

A volta do compartilhamento, da troca, do voluntarismo… Podemos encontrar várias palavras, digamos assim, espirituais. Mas ocorre que é esse sentimento que está dominando, no lugar do economicismo, do materialismo e do progressismo. Para mim, há uma volta de algo cultural e espiritual. Uma espécie de ideal comunitário, que está tomando cada vez mais força na contemporaneidade, como falei em um dos meus livros (“La France étroite”, de 2015)

PUBLICIDADE Anos atrás, o senhor já identificava esse fenômeno em festivais eletrônicos, raves e outras grandes aglomerações. Vê semelhança entre o que acontece nas janelas e esse tipo de manifestação cultural?

Sim, pode haver. Mas, sejamos claros, a epidemia é real. Essa possibilidade de perigo é simplesmente a possibilidade de morrer. E, apesar da presença da morte, acho importante que haja essas manifestações lúdicas, emocionais, através dessa ressignificação das janelas

Que novo sentido a janela está ganhando?

Simbolicamente, a janela se abre para o mundo. Estamos confinados, fechados em nossos apartamentos, e ao mesmo tempo todas essas manifestações em torno das janelas nos tornam atentos ao desejo de estarmos juntos. No século XVI, as janelas eram amplas e vastas. Pegue Versalhes, por exemplo, ou os vitrais nas igrejas. Porém, a partir do século XIX, com a arquitetura moderna, ela se reduziu e ficou estreita. Agora, por outro lado, diria que ela está novamente se abrindo para a alteridade. O individual só existe se estiver aberto ao mundo. A janela tem essa função

Qual o papel das mudanças tecnológicas no que estamos vivendo?

Temos nesse fenômeno algo do ativismo em redes. E são as redes sociais, os fóruns virtuais, os blogs etc. que nos conectam para a alteridade. É lá que as pessoas, durante o confinamento, estão se comunicando. O que é bem paradoxal, eu diria

PUBLICIDADE Por que paradoxal?

Porque foi justamente a tecnologia moderna que desencantou o mundo. Mas a tecnologia atual o está reencantando, na medida que acentua o estar-junto . Insisto nesta palavra porque a considero muito importante.